dois caminhos na sociologia da (in)sanidade-A loucura como experiência e representação
Experiências da loucura e discursos sobre a loucura
Em post anterior dedicado à imaginação sociológica da insanidade, afirmei que qualquer recém-chegado à discussão sobre “saúde” e “doença” mental nas ciências sociais encontrará nessa área, no mínimo, duas linhas de pesquisa. Elas às vezes se ignoram, às vezes se chocam e às vezes se entrecruzam de maneiras produtivas, embora nunca livre de tensões. Grossíssimo modo: um galho da investigação científico-social da loucura se dirige às próprias condutas e experiências “insanas”; outro galho está mais preocupado com os modos pelos quais diferentes sociedades classificam seus membros como “sãos” ou “loucos” e lidam, na prática, com os últimos (HORWITZ, 1999).Considere primeiramente uma socióloga que pergunta se, quando mantidos constantes os demais fatores relevantes, a pobreza favorece mais a ocorrência de depressão do que circunstâncias de conforto material. Trata-se, decerto, de um estilo de interrogação sociológica mais próximo daquela primeira linha de pesquisa, na medida em que pressupõe, se não a validade objetiva dessa categoria psiquiátrica, pelo menos a realidade da depressão como condição psíquica (experiencial, comportamental etc.). É a partir dessa premissa quanto à existência bem asseverada de quadros depressivos que a socióloga questiona-se, então, sobre que circunstâncias sociais de vida (p.ex., de renda, profissão, estado civil, etnicidade etc.) podem produzir, favorecer ou precipitar aqueles quadros (ANESHENSEL, 1999). Nesse sentido, digamos, diante da informação da Organização Mundial de Saúde segundo a qual o mundo atravessa uma pandemia de depressão, sociólogos dessa tradição tomariam a informação como essencialmente correta, passando, daí, à investigação das condições sociais de existência que, na contemporaneidade, favoreceriam o aumento nas ocorrências de quadros depressivos (p.ex., a individualização e o “culto da performance”).
Em contraste, trabalhos sociocientíficos mais próximos daquele segundo ramo analítico tomam como objeto não tanto as “psicopatologias” como experiências vividas, mas os condicionantes e os efeitos sociais dos discursos pelos quais tais “psicopatologias” são identificadas, classificadas e, em sentido amplo, “tratadas” em diferentes cenários histórico-culturais. Frente à mesma alegação citada quanto a uma pandemia contemporânea de depressão, membros dessa vertente “construtivista” de pesquisa prefeririam concentrar-se sobre a lógica social da construção e da difusão de tal diagnóstico psiquiátrico. Por exemplo, interrogaria um representante desse estilo de pensamento, não seria o senso de uma pandemia de depressão o resultado de tendências recentes de uma psiquiatria que, sob influência da indústria neurofarmacêutica, cada vez mais toma como patológicas condições psíquicas outrora tidas por normais, como a tristeza, o luto e a distração? Das teorias sociológicas do “desvio” e da “rotulação” (BECKER, 1963; SCHEFF, 1966) até a narrativa foucaultiana da transmutação moderna da loucura em “doença mental” (FOUCAULT, 1978), luminares dessa corrente analítica mostram que categorias psiquiátricas não são meras ferramentas descritivas. Tais categorias são dotadas do que, no vocabulário mais recente da filosofia e da teoria social, chamaríamos de uma força performativa, no sentido de que elas produzem efeitos de subjetivação sobre os indivíduos que caem sob sua malha. Assim como indivíduos classificados por seus agentes de socialização como “homens” ou “mulheres”, por exemplo, são socializados de maneiras que tendem a inculcar em suas subjetividades modos de agir, pensar e sentir “masculinos” ou “femininos” (i.e., socialmente tidos como tais), classificações de sanidade e insanidade também afetam profundamente as formas pelas quais as sociedades lidam com as pessoas assim classificadas. Por conseguinte, elas afetam o próprio estado psíquico dessas pessoas. O famoso estudo de Goffman ([1961] 1996) sobre o manicômio como “instituição total” exemplifica uma versão microssociológica dessa modalidade de investigação, ao revelar que uma série de condutas de internos que médicos consideravam signos de loucura eram, a bem da verdade, reações perfeitamente inteligíveis daqueles internos às circunstâncias institucionais em que se encontravam. (No mais, não demorou para que diversos autores notassem o caso-limite de força performativa em que o rótulo, como uma profecia autorrealizadora, produz a própria realidade que pretende apenas descrever: indivíduos inicialmente “normais” que genuinamente enlouquecem por serem, injusta e consistentemente, tratados como loucos pelos outros.)
Portanto, enquanto um ramo da pesquisa sociocientífica sobre a loucura se concentra sobre as condições e consequências societais da psiquiatria como discurso e instituição, outro se volta à conexão de processos societários diversos com as próprias condutas e experiências psicopatológicas. A atenção a fatores sócio-históricos, em sentido lato, está presente em ambos os casos, mas os desdobramentos de tais fatores são perseguidos em esferas distintas. Para dar uma ilustração: mesmo concordando quanto à existência de um “imperativo da atividade” como tendência sistêmica do novo capitalismo (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2007; HONNETH, 2004), cientistas sociais podem estudar a influência desse imperativo seja sobre as representações e práticas psiquiátricas, seja sobre as trajetórias e vivências biográficas dos indivíduos a ele expostos. No primeiro caso, por exemplo, pode-se rastrear o impacto ideológico do novo capitalismo sobre a tendência da psiquiatria atual, refletida em documentos influentes como o DSM-5 e o ICD-11, a conferir uma importância central à “letargia” e à “inação” como critérios para o diagnóstico de depressão (EHRENBERG, 2009). No segundo caso, tomando-se tais critérios psiquiátricos como válidos ou simplesmente passando-se ao largo de discussões sobre sua validade, pode-se investigar como experiências de “letargia depressiva” são produzidas pelas condições sistêmicas de vida na contemporaneidade, as quais fazem aos sujeitos excessivas exigências mentais e corpóreas, levando muitos deles ao colapso na forma da depressão (PETERS, 2021; PETERSEN, 2009). Uma ilustração similar poderia ser dada, digamos, quanto ao vínculo entre as incertezas socioeconômicas geradas por um mundo em transformação acelerada, de um lado, e o aumento nos transtornos de ansiedade registrados pela psiquiatria, de outro. Será que a proliferação de diagnósticos psiquiátricos de distúrbios de ansiedade, comumente acompanhada pelo tratamento farmacológico com ansiolíticos, tem um papel ideológico? Tratar-se-ia de negar a “normalidade” da resposta humana à incerteza na forma da ansiedade e, assim, de recorrer à patologização e à neurofarmacologia para “refuncionalizar” os indivíduos, isto é, torná-los mais eficazes em cenários sociais de significativa incerteza? Ou, longe de derivar de uma inflação de diagnósticos psiquiátricos, aquela proliferação de transtornos de ansiedade é uma genuína pandemia de doença mental? É possível interpretá-la como um sintoma social ou mesmo um alarme civilizacional quanto a um modo frenético de vida que se mostra, a longo prazo, insustentável para a saúde psíquica dos indivíduos nele capturados?
Enfim, qual desses ramos de pesquisa sociocientífica da loucura é correto ou adequado? A questão está, como é ululantemente óbvio nessa altura do campeonato, mal formulada. Eleger somente uma dessas vias de investigação como legítima pode nos prover mais conforto cognitivo, ao reduzir a complexidade das coisas para o nosso olhar, mas certamente não favorece uma compreensão tão fidedigna quanto possível de uma realidade complexa e multifacetada. Para quem deseja retratar essa última de modo tão verdadeiro quanto possível, ambas as modalidades de análise são necessárias, como necessário é também seu entrecruzamento.
Para além da performatividade dos rótulos
Sim, é verdade que as categorias pelas quais a psiquiatria dá inteligibilidade à psique humana são profundamente influenciadas por condições sociais historicamente mutáveis – por exemplo, os pressupostos culturais heteronormativos que legitimaram outrora a lamentável patologização da homossexualidade ou, ainda, o privilégio hoje dado à inação como característica central da depressão, tendência própria de uma fase do capitalismo que confere à atividade um valor ideológico fundamental. Também é verdade que rótulos psiquiátricos são produtores de efeitos sobre as próprias realidades que pretendem descrever, já que moldam as respostas que os entornos sociais dão aos indivíduos rotulados pela psiquiatria – respostas variadas que vão da liberdade ao confinamento, do exorcismo à psicanálise, do banimento à medicação. Através dos efeitos psíquicos gerados por tais respostas do entorno social, as categorias psiquiátricas influenciam profundamente, no fim das contas, as subjetividades desses mesmos indivíduos (p.ex., quando a consciência de se ter “depressão crônica” ou “transtorno de ansiedade” se torna um elemento fundamental da autoconcepção do indivíduo, i.e., da imagem que ele faz de si próprio).
Na medida em que o senso comum e os meios de comunicação de massa tendem a aceitar, com demasiada indulgência, a confiança do establishment psiquiátrico na validade científica e na eficácia terapêutica do seu próprio discurso, não surpreende que vários dos estudiosos mais influentes da loucura nas ciências humanas (p.ex., Foucault ou Goffman) sejam precisamente os que trazem larga dose de crítica desmistificadora àquela autoconfiança psiquiátrica. Sem necessariamente recorrerem à linguagem da “performatividade” – oriunda da pragmática da linguagem de John Austin, mas tornada influentíssima sobretudo pelo neofoucaultianismo criativo de Judith Butler -, Foucault e Goffman tornaram evidente, como vimos, o caráter performativo de categorias psiquiátricas.
Tudo isto dito, seria simplesmente absurdo reduzir as experiências vividas que a psiquiatria classifica como doenças mentais a nada além de efeitos performativos das próprias classificações psiquiátricas – como se os problemas psíquicos relacionados à loucura fossem desaparecer caso parássemos de utilizar rótulos psiquiátricos para descrevê-los. As experiências qualificadas pela psiquiatria como psicopatológicas (p.ex., ideações obsessivas ou letargia radical) são reais, independentemente de como sejam rotuladas. Portanto, elas também caem sob a alçada da imaginação sociológica, sobretudo em suas conexões com fatores sócio-históricos (p.ex., a relação entre temores obsessivos e a proliferação de mensagens de alarme nos meios de comunicação de massa, a letargia radical como resposta defensiva da psique e do corpo ao imperativo social da atividade etc.). Caso a ciência social só se permitisse investigar as experiências vividas da “depressão” ou da “esquizofrenia”, por exemplo, diante de um consenso em torno dos usos válidos dessas categorias psiquiátricas, ela não o teria feito até hoje. Portanto, melhor proceder a estas investigações com as ferramentas conceituais disponíveis – as quais não precisam, aliás, ser utilizadas de modo acrítico – do que banir todo um campo de pesquisa devido a pur(itan)ismo conceitual. De resto, como sublinhei noutro canto, a duplicada atenção analítica defendida acima tem seu correlato ético-político no tocante à relação psiquiatria/sociedade. Se é crucial o inventário histórico das opressões cometidas pela (e em nome da) instituição psiquiátrica, igualmente indispensável é não descambar para a suposição romantizada de que a psiquiatria seja uma oferta sem demanda. A demanda existe na forma dos imensos sofrimentos vivenciados por pessoas que procuram, por vezes desesperadamente, atenção e apoio para lidar com seus flagelos psíquicos. Nesse sentido, a mesma sensibilidade moral que anima a luta legítima contra tratamentos psiquiátricos opressivos não poderia significar, sob pena de contradição irresponsável, a defesa do abandono de pessoas com sofrimento mental grave à sua própria sorte [i].

Gabriel Peters
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