A Sociologia como uma Filosofia Prática e Moral (e vice versa)

 ''Embora boa parte da sociologia contemporânea tenha um caráter político e moralizante, a sociologia da moral como tal permanece pouco desenvolvida. Diferentemente da sociologia da religião, da sociologia do conhecimento ou da sociologia das artes, a sociologia da moral não possui uma verdadeira tradição, ainda que os pais fundadores da disciplina tivessem, é claro, grande interesse sobre os temas da moral e da ética. Para desenvolver uma sociologia da moral que faça jus ao próprio nome, é preciso, antes de tudo, romper a barreira disciplinar entre a sociologia e a filosofia, e superar a desconfiança e resistência dos sociólogos para engajarem-se em um "pensamento liminar" construtivo. Neste artigo, pretendo tentar reconectar a sociologia à filosofia da moral e a filosofia da moral à sociologia. A tese que defendo é de que a sociologia dá continuidade, por outros meios, à venerável tradição da filosofia da prática e da moral. Como suas antecessoras, ela depende da defesa da "sabedoria prática" (Aristóteles) e da "razão prática" (Kant).


Embora boa parte da sociologia contemporânea tenha caráter político e moralizante, a sociologia da moral em si permanece, de modo geral, pouco trabalhada. Entretanto, tem ressurgido, recentemente, o interesse sobre a sociologia da moral, com esforços coordenados para

institucionalizá-la como uma linha de investigação, tanto na Europa continental (centrada nos trabalhos de Honneth, Boltanski e Thévenot) como no mundo anglo-saxão (influenciado pelo trabalho de comunitaristas como MacIntyre, Taylor e Walzer, ou pelo realismo crítico de Bhaskar e Archer)2. Diferentemente da sociologia da religião, da sociologia do conhecimento ou da sociologia das artes, a sociologia da moral não possui uma verdadeira tradição, ainda que os pais fundadores da disciplina tivessem, evidentemente, grande interesse nos temas da moral e da ética3. Na medida em que exista um cânone, Émile Durkheim seria sua principal figura (embora sua obra "La Morale" tenha ficado inacabada). Max Weber e sua paradoxal defesa da neutralidade axiológica viriam em segundo lugar, ainda que esta debilite a ética. Marx não deixou nenhum texto específico sobre a ética em si, e tampouco deixou claro se existe espaço no marxismo para uma moral que não seja subserviente à política. Afinal, como ele afirmou , comunistas não pregam nenhuma moral. Georg Simmel, com seu "Einleitung in die Moralwissenschaft" (1991), possui dois volumes sobre ética, mas estes são pouco sociológicos e desconstroem a maior parte de seus fundamentos. Após a Segunda Guerra Mundial, Talcott Parsons, mais do que ninguém, deu continuidade à tradição durkheimiana, enfatizando a dimensão moral da vida social. Com a derrocada do estrutural-funcionalismo na década de 1960, a sociologia da moral passou a hibernar4. Pierre Bourdieu certamente produziu uma sociologia da moralidade, mas não uma sociologia moral. Como tudo mais, ele explica a moral sociologicamente, mas não deixa muito espaço para uma reflexão independente sobre a moral. Em contrapartida, tem-se a teoria da ação comunicativa e a ética do discurso de Jürgen Habermas, apesar de a maioria dos sociólogos o considerarem um filósofo.

Pode-se defender com facilidade a ideia de que os "pais fundadores" de nossa disciplina, não apenas Marx, Weber e Durkheim, mas também Parsons e Bourdieu, os quais, ao contrário de nós, estavam profundamente imersos na filosofia e conheciam seus clássicos, tinham plena consciência das dimensões morais da vida social bem como dos pressupostos e implicações normativas da nova disciplina. Apesar de sua declaração em contrário, eles bem sabiam que a sociologia que estavam propondo situava-se em uma longa tradição, e explicitamente tomavam partido: Marx tentou combinar Aristóteles, Kant e Hegel em uma revolucionária filosofia da história, Durkheim estava sabidamente mesclando Aristóteles e Kant em sua ciência da moral, enquanto Weber, colocando de escanteio 2000 anos de filosofia moral, sociologizava a marteladas. Parsons, por sua parte, rejeitou o consequencialismo utilitarista e buscou, por meio de uma síntese de Kant e da ética cristã, restaurar um sistema comum de fins últimos. A despeito de sua adesão à razão prática e para não ser demasiadamente associado à teoria marxista da justiça, Bourdieu descreveu a si mesmo como um pascaliano. De qualquer modo, sem referência aos clássicos de nossos fundadores, suponho que estes não podem ser corretamente entendidos.

Para desenvolver uma sociologia moral que faça jus a seu nome, é preciso antes romper a barreira disciplinar entre a sociologia e a filosofia e superar a desconfiança e a resistência por parte dos sociólogos profissionais, dos sociólogos críticos e daqueles comprometidos com uma sociologia pública para que possa haver um engajamento com um "pensamento liminar" construtivo5. Embora, provavelmente, quase todos concordariam que a sociologia acarreta um projeto normativo, fundado em uma visão de mundo liberal-comunitária algo nostálgica, poucos estariam de fato dispostos a explicitar esse projeto e iniciar uma indagação filosófica sobre seus fundamentos normativos6. Preparar o terreno e testar as fundações, diriam eles, cabe melhor aos filósofos, engenheiros e construtores. Não é trabalho para os cientistas sociais. Da mesma forma, embora a maior parte acolhesse a ideia de que a sociologia da moral é em si relativamente inseparável de uma posição normativa, eles não quereriam escutar que, para entender adequadamente essas posições normativas, teriam de conhecer a tradição clássica da filosofia moral e também acompanhar as discussões sobre a filosofia moral contemporânea.

Neste artigo, pretendo tentar reconectar a sociologia à filosofia moral e a filosofia moral à sociologia. A tese que pretendo defender é de que a sociologia dá continuidade, por outros meios, à venerável tradição da filosofia prática e moral. Como suas antecessoras, ela depende da defesa da "sabedoria prática" (Aristóteles) e da "razão prática" (Kant). Se pretendo romper com a solução de continuidade, não é por pensar que a sociologia tem pouco a oferecer, mas por estar convencido, como Chernillo (2013, p. 2), de que se pode fazer mais e melhor teoria social (itálico no original) ao permitir-se dialogar com questões filosóficas nas fronteiras da sociologia. Não devemos, absolutamente, deixar as questões filosóficas de nossa disciplina aos filósofos profissionais. Com algumas notáveis exceções - que se podem contar em uma mão: Habermas, Honneth, Ricoeur, Taylor e MacIntyre - eles conhecem pouco da sociologia e não se importam muito com ela. Fosse de outra forma, provavelmente não construiriam suas visões normativas como castelos no ar. Ao contrário, deve-se tomar a liberdade de explorar, com toda a modéstia, os fundamentos filosóficos da sociologia e "produzir metateoria", não tanto para se permitir os sabores da erudição, mas como uma propedêutica para sólidas construção teórica e pesquisa empírica sobre as dimensões normativas do mundo social.

1. O que vem a ser Sociologia Moral?

A sociologia moral não é uma especialidade da sociologia, como a sociologia dos esportes ou a sociologia da administração, por exemplo. Ela não se refere a um setor da vida social e sim a uma perspectiva sobre a vida social que desvela e revela uma ética onde ela brota, embora permanecendo escondida (ISAMBERT; LADRIÈRE; TERRENOIRE, 1978). Como tal, é parte integrante de uma sociologia geral que busca inter-relacionar sistematicamente estruturas sociais, cultura e práticas dentro de um marco teórico que proporcione uma resposta coerente para as três questões fundamentais da teoria social: O que é ação social? Como é possível a ordem social? Quais são as condições para a mudança social? Mais próxima, nesse sentido, da sociologia da cultura e de sua defesa da relativa independência da cultura (ALEXANDER, 1990, p. 1-30), a sociologia moral é uma perspectiva geral que traz à luz a dimensão moral da vida social e afirma que princípios, normas e valores não são apenas regulatórios, mas também constitutivos. São constitutivos não só de um certo domínio de ações, mas da própria vida social. Isso não significa que todas as ações são per definitionem ações morais (a maior parte de nossas ações econômicas não são nem morais nem imorais, tampouco nossa vida sexual é, hoje, julgada em termos morais, etc.), mas que a moral, os costumes e a ética estão invariavelmente implicados na ação, na ordem e na mudança social.

Cada ação, não importa quão racional ou emocional, rotineira ou estratégica, está cercada por um horizonte normativo que fornece os princípios, fins e valores que a definem e direcionam. De modo similar, as instituições - não importa quão sistêmicas sejam - possuem um ideal fundador que molda sua organização e seus objetivos, e é instrumental na coordenação das ações de seus membros. Mesmo os mercados financeiros estão imersos em uma economia moral e é graças a essa infraestrutura moral que seus excessos podem ser julgados e criticados. Se a mudança social é possível, é também porque as estruturas normativas que sustentam as instituições, sejam tomadas isoladamente ou em conjunto, variam com o tempo. Se a mudança social é necessária, é, entre outras razões, porque os interesses ideais de ontem entram em conflito com os interesses materiais da atualidade, ou vice versa. Quando os atores consideram que os sistemas sociais, instituições e práticas existentes não só estão em desacordo com seus interesses concretos, mas também traem suas promessas morais e prejudicam suas aspirações existenciais a uma vida satisfatória, a mudança social é iminente.

Por analogia com a famosa distinção de Jeffrey Alexander (2003, p. 11-26) entre a sociologia da cultura e a sociologia cultural, podemos fazer uma distinção entre a sociologia da moral e a sociologia moral. Enquanto a primeira assume a moralidade como algo que precisa ser explicado por fatores sociais (moralidade como variável dependente), a última investiga como a moralidade produz, constitui e regula as ações, instituições e estruturas sociais (moralidade como uma variável independente)7. Certamente, a linguagem de variáveis dependentes e independentes é redutiva e não muito apropriada para a análise da interdependência generalizada e da mútua constituição da moral e da vida social. Como se tivéssemos de escolher entre uma simples alternativa: Explicar os fatos morais pela sociedade ou os fatos sociais pela moralidade? (PHARO, 2004, p. 45).

Vale, contudo, distinguir duas linhas concorrentes na tradição sociológica que investiga o papel da moralidade e da ética na vida social8. Na primeira linha, com antecedentes que remontam aos mestres da suspeita modernos (Machiavel, Marx, Freud e Nietzsche), encontramos autores como Weber, Elias, Adorno, Althusser, Foucault e Bourdieu, nas tradições materialista, estruturalista, desconstrutivista e crítica que têm na ética um epifenômeno - e, por vezes, até mesmo um disfarce - para interesses obscuros e brigas de poder. Como Bourdieu (1994, p. 147167) questionou enfaticamente: Quem tem interesse em ser ou parecer desinteressado (désinteressé)?

Nas outra linha, com antecedentes que remontam aos Profetas da transfiguração (Agostinho, Espinoza, Kant, Hegel), encontramos autores de tradições idealista, racionalista, pragmatista e hermenêutica, como Durkheim, Mauss, Weber, Mead, Parsons, Habermas, Honneth e Boltanski. Weber figura em ambas as listas. Dependendo do que se lê ("Ciência como Vocação" ou a "Ética Protestante") e também de como é lido, ele pode tanto parecer um austero nietzschiano com inclinações existencialistas como um sofisticado neokantiano na tradição humanista9. Weber é, de fato, eclético, mas, ao fim das contas, tudo depende do que se faz com seu ardente apelo por neutralidade axiológica. Mais adiante, argumentarei enfaticamente contra esta posição, a qual considero um sério obstáculo a uma sociologia moral.

Como a moralidade é parte da cultura, a sociologia moral é, por definição, uma sociologia cultural. Como a cultura, a moralidade constitui um sistema referencial de ação relativamente autônomo. O que distingue moralidade de cultura é sua relação intrínseca com padrões normativos de avaliação, julgamento e justificação em termos de entendimentos sobre o que é certo e errado, bom e mau, com valor e sem valor, justo e injusto (SMITH, 2003, p. 8). Enquanto conjunto de visões normativas que fornecem padrões de avaliação (princípios, valores e normas) pelos quais as ações (próprias e de outros) podem ser julgadas, a moralidade é parte de uma ordem cultural compartilhada que se institucionaliza em práticas sociais estruturadas10. Como tal, ela existe fora das pessoas (id.). Uma vez que essas perspectivas culturais são aprendidas e internalizadas em e através de processos de socialização, a moralidade também existe dentro das pessoas (ibid.) como um conjunto de padrões de comportamento correto que define, orienta e regula suas ações a partir de seu ego. Tais padrões podem ser formulados reflexivamente, seguidos de forma semiconsciente ou vagamente percebidos, mas não expressos, como é o caso dos sentimentos morais (como, compaixão, orgulho, ressentimento etc.).

Seguindo a famosa détournement (derivação) de Bourdieu, da distinção de Espinoza entre natura naturans e natura naturata, poderíamos afirmar, com a tradição durkheimiano-weberiana da sociologia moral, que a moralidade é uma estrutura estruturante, a qual revela o valor do mundo; e, com a tradição weberiano-marxista da sociologia da moralidade, que ela é uma estrutura estruturada, a qual expressa relações de força e contribui para a reprodução da sociedade como um sistema de dominação. Enquanto a conexão com a cultura permite conceber a moralidade como um sistema referencial coletivo internalizado, o qual estrutura e regula ações conforme padrões, sua relação com estruturas sociais, interesses materiais e relações de produção sugere que a invocação do bem comum e do interesse geral, a qual caracteriza a vida moral, está enraizada em determinados modos de viver e expressa, através de estratégias de universalização e de idealização, os interesses e ideais de determinados grupos e estratos portadores (classes, propriedades, nações etc.). Do ponto de vista da sociologia da moral, os posicionamentos morais podem e devem ser explicados em termos de posições sociais contidas na estrutura social e de seus respectivos discursos. Nesse sentido, a sociologia da moral pode ser considerada uma formalização da sociologia popular: Eles diriam/fariam isso, não? (SAYER, 2005, p. 6). Para uma sociologia cultural que busca manter um vínculo entre práticas e mudança social, a questão é: de que modo princípios, normas e valores podem ser simultaneamente uma condição e uma consequência da ação social. Para solucionar este enigma, sugiro ser necessária uma referência à normatividade e à moralidade.

2. Ética Descritiva

Os filósofos consideram que a redução sociológica da moralidade a um conjunto de convenções, costumes e comportamentos social, cultural e historicamente variáveis, esvazia totalmente o juízo moral11. Ao sugerir que a moralidade sempre ocorre no plural, a sociologia introduz uma boa dose de relativismo e ceticismo no debate sobre a moral. Vem à mente, então, a exclamação de Pascal: Um meridiano decide a verdade [...] Curiosa justiça: um rio a limita! Verdade deste lado dos Pirineus, erro do outro lado (PASCAL, 1954, § 294). Para os filósofos da moral, que procuram um critério avaliador que seja idealmente universal e válido para qualquer comunidade moral concebível, falar sobre múltiplas moralidades é necessariamente problemático. Podemos imaginar, seguindo Steven Lukes, que eles querem apresentar aos sociólogos da moral uma questão meta-ética fundamental: Diversidade da moral é diversidade do quê? (LUKES, 2013, p. 558). Para responder adequadamente e sem subterfúgios a essa questão, há que formular critérios metaéticos que tornem possível a qualificação de qualquer ato como moral, como imoral ou como moralmente neutro.

Embora esta reflexão sobre a natureza das propriedades éticas dos julgamentos morais (o que torna moral um julgamento?) seja indubitavelmente filosófica, pode-se torná-la mais sociológica ao abrir a questão aos próprios atores. Na medida em que os atores reflitam sobre os critérios que utilizam para justificar seu próprio comportamento ou criticar o de outros, cada ator bem pode ser considerado um filósofo. Na verdade, não há qualquer razão para rejeitar uma sociologia da filosofia ou, melhor dizendo, de filósofos leigos em situações de ações cotidianas que são submetidas a imperativos de justificação (BOLTANSKI e THÉVENOT, 2000). Na vida cotidiana, os atores avaliam, julgam, criticam outros o tempo todo. Uma vez que se comece a prestar atenção ao papel dos argumentos filosóficos em situações de ação rotineiras, se descobrirá que os atores são dotados de um 'senso crítico' e que utilizam constantemente uma linguagem moral para denunciar injustiças de todos os tipos. É suficiente ouvir atentamente o incessante rumor que atesta a indignação, a dor e a inquietação causadas pelo sentimento de injustiça, que manifesta a capacidade das pessoas de ativar seu senso de equidade (BOLTANSKI, 1990, p. 130).

Os sociólogos fazem o mesmo, contudo, não tanto como sociólogos - o dogma da neutralidade ética os proíbe de tomar partido -, mas como atores. Uma sociologia reflexiva, na qual o sociólogo observa e descreve, explica e compreende os argumentos normativos de atores comuns, inclusive os seus próprios, não só é uma parte necessária da vigilância epistemológica (BOURDIEU; CHAMBOREDON e PASSERON, 1973, p. 94-106); também permite ver que a sociologia defronta-se com o posicionamento moral tanto como um recurso (os pressupostos morais da sociologia) quanto como um "tema" em si mesmo (os posicionamentos morais dos atores). A moralidade está sempre lá como um contexto moral não questionado e continuamente reafirmado (sociologia como um empreendimento liberal-comunitário moderno) e como um horizonte moral (as visões normativas que inspiram e motivam os atores). Uma vez que a denominação não descarta a investigação das interconexões entre ambas, se poderia denominar a primeira moralidade profissional da sociologia e a segunda sua moralidade leiga. Com os conceitos sociológicos circulando do mundo da vida para a academia e vice versa, ambas estão profundamente entrelaçadas. A dupla hermenêutica é, de fato, tão profunda e a reflexividade institucional tão intensa, que é difícil dizer onde uma começa e a outra termina (GIDDENS, 1981, p. 1-17).

Os filósofos da moral vivem em um mundo ideal e perfeito em que os julgamentos são sempre plenamente explicitados e as pessoas comportam-se racionalmente e moralmente. Seu interesse reside em questões puramente normativas, conceituais e histórico-filosóficas: Quais são os critérios da moralidade? Como funciona o senso de justiça? É possível ser um cognitivista em ética? Como se pode justificar uma determinada norma? Qual a relação entre virtudes e valores, valores e normas ou valores e sentimentos morais? A justiça tem prioridade sobre o bem? Como alguém deve se portar em uma determinada situação? O que Aristóteles queria dizer com phronesis? Justifica-se a crítica de Hegel a Kant? Qual a posição originária de Rawls e como ela se compara à situação ideal de fala de Habermas? Pode a crítica ser transcendente ou ela tem sempre de ser imanente? Para os sociólogos, que já não mais são formados em filosofia, essas discussões filosóficas com frequência parecem não-substantivas, técnicas, e mesmo, sem sentido.

De uma perspectiva sociológica, os filósofos são perfeccionistas. Lidam com atores ideais em mundos ideais, não com contextos reais e situações confusas. Estão, acima de tudo, preocupados com questões normativas e os exemplos da vida cotidiana que referem, ou mesmo inventam (especialmente se são formados na tradição analítica) revelam que eles não se importam muito com descrições ou explanações. Os sociólogos, por sua vez, evitam enumerações de virtudes, enunciados sobre o bem ou elaborações sobre o justo. Em lugar disso, focam no negativo e no mau (racismo, sexismo, colonialismo), denunciam injustiças (desigualdade e exploração) e desvelam patologias sociais (alienação, desencantamento e anomia), deixando a justificação explícita de suas críticas, normas e utopias para os filósofos (BENHABIB, 1986). E, afinal, não somos todos contra exploração, estupro e assassinato?

Para fazer a transição da filosofia moral para a sociologia moral como uma forma de investigação moral (BELLAH, 1983), é preciso trazer de volta a filosofia para o mundo real e investigar empiricamente como os atores ponderam, pensam, avaliam, justificam e atuam moralmente em situações de ação comuns. Essa transição do normativo para o empírico só é possível se a filosofia não for contraposta à sociologia, e sim integrada a esta, formando algo como uma "ética descritiva" (algo similar, talvez, à "metafísica descritiva"). Esse intento estaria na interseção da ética (porque implica discussões filosóficas sobre "o bem" e "o justo" e também conhecimento da tradição da filosofia moral) com a sociologia (porque descreve, compreende e explica o senso moral das pessoas em situações reais de ação).

O que é necessário aqui é uma boa articulação entre i) descritivo e prescritivo, ii) externo e interno, iii) posições de observador e de ator: (i) A partir dessa perspectiva dialógica, é preciso, primeiro, estudar as prescrições normativas de filósofos, para melhor descrever a dimensão normativa da vida social. Ao longo da história, os filósofos desenvolveram linguagens complexas e perspectivas elaboradas do bem e do justo em sociedades bem organizadas (MACINTYRE, 1966TAYLOR, 1989; ver também a última seção deste artigo). Os sociólogos devem estudar esses sistemas filosóficos como repertórios morais que fazem parte da cultura ocidental12. Parodiando uma célebre frase de Paul Ricoeur - explicar mais para entender melhor(RICOEUR, 1986, p. 22) -, poderíamos dizer que o propósito deste desvio através da filosofia é prescrever mais para descrever melhor e, também, inversamente, descrever mais para prescrever melhor e fundar o julgamento no senso crítico dos atores.

(ii) em seguida, é preciso também superar a oposição entre um entendimento interno dos atos morais (internalismo) e uma observação externa dos fatos morais (externalismo). Na verdade, externalismo supõe internalismo, observação supõe entendimento, entendimento supõe julgamento: Só entendemos um ato discursivo se soubermos o que o torna aceitável. [...] Entender as razões (da ação) implica em si uma avaliação (HABERMAS, 1981, p. 168-169). Isso ocorre, porque, como assinalaram repetidamente semanticistas sociológicos (PHARO, 2004, p. 48-84), neowittgensteinianos (LOUCH, 1966, p. 50-60) e etnometodólogos (JAYYUSI, 1991, p. 227-251), antes que se possa observar e registrar fatos morais, é preciso ser capaz de reconhecê-los, o que pressupõe pelo menos algum tipo de "criteriologia normativa". Sem reconhecimento da moral, sem um julgamento implícito e uma avaliação dos fatos sociais, tampouco haverá cognição dos fatos morais. O normativo reside no descritivo e o descritivo no normativo. A quaestio facti não pode ser separada da quaestio iuris. Para a ética descritiva, portanto, métodos objetivos, não avaliativos, neutros não são uma opção.

(iii) Finalmente, e associado ao anterior, é preciso também unir a perspectiva de primeira pessoa, do filósofo normativo, à perspectiva de terceira pessoa, do sociólogo observador. Os filósofos assumem uma perspectiva performativa e buscam fundamentar racionalmente seus julgamentos, através de argumentação moral, deliberação e justificação. Com frequência, falam em seu próprio nome, mas, por meio de argumentos morais sustentados com interlocutores reais ou imaginários, elevam-se da perspectiva de primeira pessoa para a perspectiva universal de um juiz imaginário (o tribunal da razão de Kant) que incorpora a perspectiva da humanidade como tal. Os observadores sociológicos normalmente evitam julgar seus sujeitos de observação. Ao invés de avaliar criticamente suas posições de um ponto de vista moral, eles tentam compreendê-las e explicar seu comportamento com referência a sua comunidade e ao discurso moral da mesma. De um modo bem weberiano, eles o fazem tornando explícito o universo moral específico da comunidade nativa. Interpretar, explicar e compreender os posicionamentos morais dos sujeitos, sem julgá-los, é o que recomenda e exige a observação participante.

Através da fusão da posição do filósofo (e, lembremos, com Gramsci, que "cada homem é um filósofo") com a posição do sociólogo, podemos alcançar uma hermenêutica explicitamente normativa da "avaliação participante" em que o sociólogo tem de julgar as avaliações daqueles que observa para compreendê-los melhor - a eles e seu universo moral. Uma vez que se tenha integrado filosofia e sociologia em uma etnografia da moral (sic), pode-se também atacar o dogma weberiano da neutralidade axiológica (WEBER, 1988ab) e propor uma sociologia normativa que não é nem relativista nem decisionista, mas faz total justiça às concepções normativas e intuições dos próprios atores.


Conclusão

Os pressupostos filosóficos que organizam a sociologia normativa como filosofia prática e moral são o resultado de uma cruzada secular para investigar os princípios, normas e valores que respaldam a constituição da sociedade. Como uma resposta prolongada a toda a tradição utilitarista-atomística-individualista, que sistematicamente reduz a importância do papel constitutivo desempenhado pela cultura de um modo geral e pela moral em particular na estruturação da sociedade, a tradição sociológica deu continuidade, por seus próprios meios, à pesquisa empírica teoricamente informada sobre as práticas, a busca por uma sociedade boa, justa, e ordenada de indivíduos em interação e inter-relação que atuam de forma concertada para produzir, reproduzir ou transformar a ordem social de que fazem parte.

De Comte a Mauss e Boltanski, de Marx a Habermas e Honneth, de Hume a Mead e Parsons, as principais tradições de teoria social geral buscaram recuperar os fundamentos morais da ação social, da ordem e da mudança. Mediante um diálogo explícito com Kant, Hegel, Marx e, muitas vezes, também com Nietzsche; a partir de uma fusão criativa entre teoria social e filosofia moral, aqueles autores buscaram recuperar partes da tradição aristotélica da filosofia prática que Hobbes, Bentham e Mill haviam rejeitado.

Entretanto, como mostrou Donald Levine (1995) em sua reconstrução dialógica das tradições nacionais da sociologia, a maior parte dos pressupostos que informavam a filosofia aristotélica foram recuperados um a um na teoria social pós-hobbesiana. Agora que a sociologia moral está no auge, talvez tenha chegado a hora de avaliar nossa herança e reformular a teoria social como uma prática e um modo de vida. Já é tempo de abandonar falsas interpretações de nossas práticas científicas. Como se pudéssemos apagar os fundamentos sobre os quais nos apoiamos. Ao tomarmos consciência das tradições que nos alicerçam e a que damos continuidade, quem sabe poderemos também transformá-las e às nossas autoconcepções. Ao repensar a teoria social como uma prática coletiva, estaremos devolvendo-a ao lugar de onde vem: a sociedade, mas agora entendendo-a como um projeto de humanização progressiva de suas instituições e suas práticas.''Logomarca do periódico: Sociologias

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